Meu final para Lúcia - Pollyana
*Lúcia*
 

”Sim, eu o amo” – foi com este pensamento em mente que Lúcia estendeu a mão ao homem à sua frente. Mão que Ferreira aceitou e apertou suavemente. Lúcia acenou levemente com a cabeça e em seguida o conduziu até seu quarto. Enquanto venciam o pequeno espaço entre sala e quarto, Lúcia se perguntou quando tudo se dera. Abrindo as portas da conhecida câmara Ferreira a fitou, e logo ao aposento que já conhecia. Naquele foi como se o tempo tivesse parado para os dois, parado e voltado ao passado. Ferreira mergulhou em lembranças antigas, mas não esmaecidas. Do tempo em que fora feliz naquele aposento. Lúcia perdendo-se em seus olhos perdeu-se em lembranças, não tão antigas, todavia igualmente presentes. Lembrou-se de quando deixara a prisão. Pois, apesar de Eduardo ter pedido sua libertação ainda na audiência, tiveram que esperar pelos tramites legais. E enquanto isto se dava esperara na sua escura cela. Seu coração se encontrava ansioso, ansioso pela liberdade aguardada e pelo inconfessado medo de que algo desse errado.

Qual não foi sua alegria ao ver o sisudo urbano abrindo-lhe os cadeados da cela, dizendo-lhe as palavras que tanto esperara “a senhorita está livre”. Caminhou sem ver, subiu as escadas até a sala onde assinaria os papeis que comprovavam sua liberdade. Assinara-os sem ver, como não vira os rostos que a esperavam sorridentes. Até que a névoa que encobria a realidade foi dissolvendo-se. E pode finalmente estar feliz. Então reconheceu os rostos que a cercavam. Eduardo Abreu, o advogado, o amigo, aquele que não desistira dela em nenhum momento. Que nos momentos em que fraquejara fora seu maior aliado, alentando-a, renovando-lhe as esperanças. Sua irmã, Ana. Oh, como era bom encontrá-la ali. Sua amada irmã. Sentira tantas saudades...

Aurélia sorrindo. Ah, amiga, quanto temera, que bom ver seu sorriso. Mila, Mila! Via as lágrimas descendo por sua face e desconfiava que o mesmo lhe passava, pois às vezes as imagens escapavam. Mila a amiga que sempre estivera á seu lado. E quando se preparava para acolher a todos num único abraço, vê, saindo de trás das amigas, Ferreira, com um buquê de rosas nas mãos. O que? Percebia lágrimas nos olhos daquele fanfarrão? Estava tão feliz, irremediavelmente feliz. Todas as pessoas que amava estavam ali naquele momento.

Sim, certamente desde aquele dia soubera que amava Ferreira. Como a vida podia ser brincalhona e misteriosa. Aquele homem que já tivera em seus braços, de quem rira-se, ei-lo agora, amava-o. Ferreira viera como um consolo, trazendo suavidade a uma vida tão áspera, amando-lhe de maneira serena e apaixonada.

É certo que nunca esqueceria Paulo. Paulo lhe ensinara que até mesmo ela, uma cortesã, tinha direito ao Amor. Ele lhe abrira a janela para um sol quente e acalentador. Com sua morte vieram sombras tristes e frias, sentira-se culpada pela felicidade que tivera, julgando-se imerecedora. Mas por fim compreendera que Paulo fora vida e alegria e que ele a ensinara e a abrira para o Amor. Ele seria como a Primavera, quente, olorosa, terna. Ele seria uma lembrança eterna, não mais triste, pois só senti alegria ao saber que amara e fora amada de maneira tão sublime e completa. Mas a lembrança de Paulo não mais trazia tristeza. Sentia o sol de novo, e seu calor lhe contava das flores, dos sorrisos, pois sabia-se, novamente, merecedora do Amor.

E ali tinha Ferreira, que se mostrara tão gentil e carinhoso nas horas mais tenebrosas de sua vida. Que a respeitara e soubera esperar as pétalas de seu coração expandirem-se. Ele seria o Outono em sua vida. Voltando ao presente ela apertou suas mãos.

Ferreira também parecia despertar e os dois se fitaram como se fosse a primeira vez depois de uma longa viagem por mundos distantes e estranhos. Como se fossem velhos marujos reconhecendo-se e felizes por estarem juntos após tantas aventuras.

Eles seriam, a partir de então, a suavidade que preencheria a alma do outro, o consolo de espíritos sofridos, mas não desiludidos. Pois não eram daqueles que se sujam por haverem vivido o feio, eram, antes, almas jovens e inocentes, alegres por estarem vivas. E esta certeza pareceu refulgir de maneira simultânea, como desperta pela mesma corda, pois sorriram no mesmo segundo e novamente apertaram-se as mãos.

Desta maneira, com o regozijo em seus corações que eles se abraçaram. E deste abraço terno que eles compreenderam a vida de seus corpos. Lúcia entregou-se a este abraço como quem encontra descanso após trabalhos incansáveis. Ferreira entregou-se a este abraço como quem finalmente encontra seu porto após uma longa viagem em meio à tormenta. Eles eram sobreviventes.

Afastando-se ligeiramente, Lúcia fitou-o mais uma vez, buscando as palavras certas. Mas antes mesmo de pronunciar qualquer coisa escutou a voz grave do homem à sua frente, “não, eu não preciso de nenhuma palavra sua, Lúcia. A única coisa que preciso, a única coisa que desejo, a única que eu realmente almejo, é estar assim, em seus braços”. Mas ele precisava saber que ela não hesitava, ele precisava saber quais eram seus sentimentos. Então ela o beijou, nos lábios. E neste beijo de amor ela empregou o que tinha de mais doce, de mais verdadeiro. “Ainda desta vez, Ferreira, eu quero eu você me pague. Mas meu preço será ainda mais caro. E o único pagamento que eu posso desejar é... seu coração”. “Você já o tem, Lúcia. Oh, meu amor, ele já é seu há tanto tempo”.