Aurélia Cuidando de Fernando
Abaixo nossa amiga Polly descreve uma cena que gostaria de ter visto na novela...
"O quarto é iluminado pelo sol da manhã, a porta que leva ao toucador está entreaberta. A mulher adentra o aposento, depois das últimas ordens para a correição do café da manhã. Ela caminha até a secretária e toma alguns papéis. Seus olhos, como sempre, são atraídos pela porta ao lado. Aquela que leva à câmara de seu marido. Aurélia se esquece de seus papéis, deixando-os cair sobre a mesa. Ela, sem dar-se conta, dá alguns passos até a porta, ainda não a percebendo entreaberta. Desperta de seu transe ao ouvir o homem praguejar do outro lado, “Maldição!”. Ela recua, mas a ouvir novas queixas se aventura e toca de leva na porta, “Posso entrar?” E sem esperar resposta ousa empurrar a porta um pouco mais.

Fernando, concentrado no manejo da navalha não se dá conta de que lhe falam do outro lado. Por fim, ao ver a porta que se abre, e achando tratar-se de um criado mira na direção e se depara, surpreso, com a imagem de sua esposa.

Aurélia se surpreende, a visão é a de seu marido, em mangas de camisa, com o rosto besuntado pelo creme de barbear, o olhar atento e a mão, pega em flagrante, a alguns centímetros do rosto, suspensa. “Me desculpe...”, começa, ao mesmo tempo que Fernando “ah, me perdoe a senhora. Me atrapalho com o barbear, que desde que machuquei a mão tem-se me tornado tarefa duríssima”. Os dois sorriem sem jeito da situação.

Após curto período de silêncio, Aurélia parece decidir-se e adentra o quarto, “se o senhor, se o senhor permitir-me que o ajude...” Diz, caminhando em sua direção, mas sem fitar-lhe os olhos. Fernando pronto, prepara-se para alguma desculpa “mas será muito cuidado...” Quando a mulher lhe tira a navalha das mãos. Nada mais fazer que deixá-la ajudá-lo."

Com cuidado Aurélia maneja a navalha, passando-a pelo rosto do homem que é seu marido. Ela faz o contorno com suavidade, com calma, sem desviar a atenção. Mas Fernando não pode deixar de sentir-se inquieto com a presença da esposa, assim tão próxima. Ele não quer, não ousa, mas seu olhar, como que por magnetismo é atraído para seu rosto. Aurélia não se apercebe que é estudada, atenta em sua tarefa. Fernando contudo está por demais atraído, não pode desviar o olhar, tem vontade de tocar aquela cútis suave, delicada. Sente ganas de tocá-la. Por mais que tente seus olhos baixam, subjugados, aos lábios que já provara. Não pode conter seu desejo,e num ato reflexo suspira...

Aurélia que até então o barbeava somente, tão concentrada estava, atrapalha-se. O suspiro de Fernando, sem o perceber, subleva-lhe o peito e faz tremer a face; Aurélia, tomada pelo movimento inesperado deixa deslizar a navalha que lhe faz um minúsculo pique na face. Seus olhos então se encontram aos de seu marido e percebe, acanhada, que fora objeto de estudo. O que vê em seu olhar, não quer acreditar... Seria amor, seria desejo?

Fernando toma-lhe a navalha e a repousa sobre o consolo. Os dois estão tão próximos que sentem o bafejar de sua respiração. Ele toma sua mão, ela está hipnotizada, presa de seu olhar nada pode fazer. Ele se aproxima lentamente. Ela tem certeza: ira beijá-la. Quer, deseja tanto que aconteça. Sente quase a suavidade de seus lábios, os lábios do homem que ama.

Mas não, ele ainda não estão prontos. “Fernando, sinto que pode terminar sozinho agora. Tenho que ir”. E some-se pela porta. Fernando, meio perplexo, ainda preso do sonho apenas consegue olhar para porta. “Que mulher tão estranha...” "